Feijoada à Transmontana: Receita (quase) Tradicional e Dicas para o Caldo Perfeito
A feijoada à transmontana é um dos pratos mais reconfortantes da cozinha portuguesa, preparada com feijão vermelho, carnes fumadas e enchidos tradicionais. Cozinhada lentamente, cria um caldo espesso e profundo, cheio de sabor, perfeito para dias frios e mesas bem compostas.
Esta é a minha versão do prato: fiel ao espírito tradicional, mas pensada para cozinhas domésticas, sem complicações desnecessárias.
A minha ligação à feijoada transmontana:
Nas minhas preferências da dita comida tradicional portuguesa, está tudo o que tiver enchidos. E se quando eu era miúda, feijão era coisa que não gostava, feijoada à transmontana está actualmente dentro da minha lista de preferências. Mas faço-a à minha maneira.
Antes de mais nada, preciso dizer que no Uma Receita normalmente tento trazer alguns pratos que aparentemente poderão ser de maior dificuldade de execução, para os desmistificar e entusiasmar-vos a fazer coisas diferentes no vosso dia-a-dia. Só que a nossa cozinha tradicional tem coisas maravilhosas. E vejo muitas vezes que aqueles pratos mais tradicionais têm tido imenso sucesso.
São várias as vezes que recebo pedidos para partilhar receitas mais portuguesas. E esta vem precisamente ao encontro desses pedidos. Nada mais tradicional que uma bela feijoada à transmontana.
Eu sou grande adepta da nossa cozinha e em particularmente desse mundo maravilhoso que são os enchidos. Por isso, venha o cozido à portuguesa… Venha a alheira… E venha isto tudo junto.
Em Trás-os-Montes, cada família guarda a sua versão, mas a essência mantém-se: enchidos, carnes suínas, feijão e um caldo espesso que aquece qualquer mesa de inverno. Nesta versão, partilho a minha adaptação – fiel ao espírito tradicional, mas prática para cozinhas modernas.
Mas na verdade a minha aceitação de leguminosas nas minhas refeições é muito recente. Em miúda detestava tudo quanto fosse grão, feijão, ervilhas e nem vou falar de lentilhas que foi coisa que descobri posteriormente, sobretudo porque era coisa que a minha mãe nem conhecia.
Por isso, quando havia este prato lá em casa, era ver-me a picar os feijões e a comer apenas a carne e, claro está os enchidos. Houve tempos em que feijoada à transmontana era um prato que eu fazia para os amigos sempre na entrada do Inverno. Em suma, reunia uns quantos casais ao domingo e fazíamos uma bela almoçarada. As vidas mudaram, e essa tradição quebrou-se, mas o gosto pelo prato ficou.

Assim sendo, e inspirada pelo programa no 24 Kitchen do Chef Henrique Sá Pessoa que vejo assiduamente e já referi aqui anteriormente, trago-vos então mais um modo de fazer esta comida tão portuguesa, deixando uma dica final: como todos os pratos do género, por exemplo uma dobrada, esta feijoada à transmontana fica muito mais apurada se feito de véspera e aquecido no dia de servir.
Como fazer feijoada à transmontana (passo a passo)
A feijoada à transmontana não é apenas um prato — é um ritual. Há sempre aquele momento em que a cozinha se enche de aromas pesados e reconfortantes, e a panela parece comandar o tempo da casa. É uma receita que pede calma, respeito pelos ingredientes e a consciência de que não vale a pena tentar apressar o processo. Cada etapa tem o seu papel.
O ponto de partida está sempre nas carnes. Entre fumados, enchidos e pedaços mais robustos, tudo deve cozinhar devagar para permitir que os sabores se integrem e criem aquele caldo espesso e profundo que define esta feijoada. Nesta minha versão, dispenso bem o pé de porco (se querem a tradicional, têm de ir a outro lado!), mas não abdico de uma boa orelha de porco. É ela que, cozinhada lentamente, solta aquela gelatina que deixa o molho da feijoada bem apurado e aveludado, sem precisar de mais truques. O feijão, por sua vez, funciona como o grande unificador da receita, absorvendo os temperos e devolvendo-os numa textura cremosa e quente.
Antes de chegar à receita em si, fica a ideia geral do processo: cozinhar as carnes, preparar o feijão, juntar tudo numa só panela e deixar que o lume brando faça a sua magia. Não tem segredos complexos — o segredo é mesmo o tempo.
Dicas para uma feijoada à transmontana perfeita
Há pequenos detalhes que fazem toda a diferença numa feijoada à transmontana, especialmente para garantir aquele caldo encorpado e o sabor tradicional.
Como engrossar o caldo da feijoada
O caldo ganha corpo de duas formas: pelo amido natural do feijão e pela redução lenta. Se ficar mais líquido do que desejado, esmagar uma concha de feijão dentro da panela funciona sempre. Também ajuda deixar a feijoada descansar uns minutos antes de servir — o caldo assenta e engrossa naturalmente.
Como evitar que os enchidos rebentem
Os enchidos devem entrar mais tarde e nunca com o lume alto. Se forem cozidos demasiado cedo ou com fervura intensa, a pele rebenta e perde-se sabor no caldo. O ideal é adicioná-los já na fase final, apenas o tempo necessário para cozinharem e libertarem o aroma certo.
A couve lombarda
Para mim, uma feijoada não está completa sem o toque verde e ligeiramente amargo da couve lombarda. Gosto de a juntar quase no fim, para que coza no caldo rico das carnes sem perder a textura. É ela que ajuda a equilibrar a gordura dos enchidos e traz aquela frescura que um prato tão robusto pede.
Quanto tempo deve cozinhar a feijoada
Não existe um tempo universal, mas a regra é simples: o suficiente para que as carnes fiquem tenras, o feijão absorva o tempero e o caldo espesse. Normalmente, ronda entre 1h30 a 2h, dependendo da combinação de carnes. É um prato que não aprecia pressas — quando está pronta, percebe-se.
Mais um detalhe importante
A feijoada fica sempre melhor no dia seguinte. O sabor ganha profundidade e equilíbrio, por isso é um daqueles pratos que podem (e devem) ser preparados com antecedência.
Estas são dicas reunidas ao longo das muitas vezes em que preparei esta feijoada, e resultaram sempre em pratos consistentes, equilibrados e com o sabor tradicional que se espera de uma receita transmontana.

Feijoada à Transmontana (ou à minha maneira)
Ingredientes
- 1 Orelha de porco
- 1/2 Chouriço
- 1/2 Morcela
- 1/2 Farinheira
- 1 pezinho de porco
- 300 gr entremeada magra
- 300 gr Couve lombarda cortada em juliana
- 2 cebolas
- 1 folha de louro
- 2 cravos da India
- 2 dente de alho
- 300 gr feijão vermelho
- 1 lata tomate pelado em cubos
- fio azeite
- 50 ml vinho branco
- pimenta
- sal
- gotas piri-piri opcional
- coentros picados
Preparação
- Numa panela cozer os enchidos cobertos com água durante 20 minutos. Guardar a água da cozedura.
- Na panela de pressão, deitar a água da cozedura dos enchidos, e levar a cozer as carnes durante 30 minutos (se necessário compensar com mais agua de modo a ficarem cobertas) com meia cebola, o cravo da India, a folha de louro, um dente de alho e um pouco de sal.
- Retirar as carnes, cortar em pedaços e reservar a água. Descartar a cebola, folha de louro, cravo da India.
- Num tacho grande, refogar a cebola com o dente de alho e a restante folha de louro.
- Quando a cebola estiver translucida, juntar o tomate e refrescar com o vinho branco. Deixar cozinhar o tomate uns minutos.
- Juntar o feijão escorrido, as carnes, a couve lombarda e cobrir com a água reservada da cozedura. Deixar ferver 15 a 20 minutos. Corrigir temperos e adicionar o piri-piri a gosto.
- Juntar os enchidos só 5 minutos antes de servir. Apenas para aquecer. Polvilhar com coentros picados e terminar com um fio de azeite.
Acompanhamentos recomendados
A feijoada à transmontana é um prato forte, rico e de presença, por isso os acompanhamentos devem equilibrar, não competir. O mais tradicional é o arroz branco solto, que ajuda a absorver o caldo e a suavizar os sabores fumados.
Outra opção muito portuguesa é servir com grelos salteados, que trazem aquele toque amargo e fresco que corta maravilhosamente a gordura natural do prato. Em dias realmente frios, também funciona muito bem com couve portuguesa cozida ou broa de milho, perfeita para limpar o prato até ao último vestígio de molho.
E como esta é uma feijoada com personalidade, não há cerimónia: é um prato que pede mesa cheia, conversa lenta e um acompanhamento simples que não lhe roube o protagonismo.
Cada um tem a sua interpretação da feijoada à transmontana, mas esta é a versão que preparo em casa e que se aproxima mais da tradição transmontana que me ensinaram. É um prato que faço com frequência e que continua a ser um dos favoritos aqui em casa quando quero juntar amigos num almoço de domingo no inverno.
Coisas importantes a saber sobre esta feijoada à transmontana:
A feijoada à transmontana leva sempre feijão vermelho?
Tradicionalmente, sim. O feijão vermelho (ou catarino) dá estrutura e profundidade ao prato. No entanto, há quem use feijão manteiga por preferir uma textura mais cremosa. O sabor altera ligeiramente, mas continua fiel ao espírito da receita.
Posso preparar a feijoada com antecedência?
Não só pode como deve. A feijoada melhora muito de um dia para o outro: os sabores assentam, o caldo engrossa e o prato fica mais equilibrado. Basta aquecer em lume brando antes de servir.
Como evitar que a feijoada fique demasiado líquida?
O segredo está no tempo de redução. Cozinhar sem tampa nos minutos finais ajuda o caldo a ganhar corpo. Se ainda assim estiver demasiado líquido, esmagar uma pequena porção do feijão dentro da panela resolve de imediato.
Quais são as melhores carnes para feijoada à transmontana?
A receita tradicional inclui uma combinação de carnes fumadas (chouriço, salpicão, morcela), carne de porco, orelha, entremeada e, nalgumas versões, costela. A riqueza do prato vem precisamente desta mistura de texturas e sabores.
É possível fazer uma versão mais leve da feijoada?
Sim. Pode reduzir a quantidade de enchidos, utilizar cortes magros de carne de porco e optar por um caldo menos gordo. O resultado será diferente, mas mantém o espírito do prato.
A feijoada pode ser congelada?
Pode. Deve ser dividida em doses e congelada quando já estiver completamente fria. Descongelar no frigorífico e aquecer lentamente preserva melhor a textura do feijão e das carnes.
Que acompanhamentos combinam melhor com feijoada?
Arroz branco solto, grelos salteados, couve portuguesa cozida ou broa de milho. Todos ajudam a equilibrar a intensidade do prato sem lhe roubar protagonismo.
Quanto tempo demora a cozinhar a feijoada à transmontana?
Em média, entre 1h30 e 2 horas. O tempo varia conforme os tipos de carne utilizados e a textura desejada para o caldo. É uma receita que não gosta de pressas — fica pronta quando as carnes estão tenras e o feijão absorveu bem os temperos.


3 Comments